Três candidatos que tiveram os registros questionados por suspeita de ligação com o crime organizado foram eleitos no primeiro turno das eleições de 4 de outubro de 2026. Dois conquistaram vagas no Rio de Janeiro e um em São Paulo, segundo levantamento da Folha de S.Paulo publicado neste sábado (10).
Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 155.836 votos. Márcio Canella, também do União Brasil e ex-prefeito de Belford Roxo, ficou em segundo lugar na disputa pela Assembleia Legislativa do Rio, com 197.178 votos. Ney Santos, do Republicanos e ex-prefeito de Embu das Artes, foi eleito deputado federal por São Paulo com 118.566 votos.
Os três faziam parte de um grupo de cerca de 30 candidatos cujas candidaturas foram questionadas pela Procuradoria-Geral Eleitoral ou pela Justiça Eleitoral por suspeitas de vínculo com organizações criminosas. A maioria não se elegeu. Outros registros foram indeferidos pelos Tribunais Regionais Eleitorais, em especial no Rio, onde o TRE barrou 15 candidaturas com base em indícios de ligação com facções, milícias ou a chamada “milícia de gravata”.
Rueda e a campanha em Belford Roxo
A Procuradoria questionou a candidatura de Rueda por suposto aproveitamento de uma estrutura miliciana na Baixada Fluminense. O parecer citou a campanha conjunta com Canella e o apoio de Eduardo Araújo e Fabinho Varandão, dois nomes que tiveram candidaturas barradas pelo TSE em 2024 por vínculos com milícias.
O TRE-RJ deferiu o registro de Rueda por unanimidade em 22 de setembro de 2026, por 7 votos a 0. A Corte entendeu que as acusações se baseavam em apoio de terceiros, sem prova de participação efetiva do candidato em organização criminosa. A defesa afirmou que ele não responde a condenação, denúncia ou indiciamento e classificou o caso como “quarteirização” de responsabilidade.
Canella, nomeações e o fuzil
No caso de Canella, a Procuradoria apontou a nomeação de Araújo e Varandão como secretários municipais em Belford Roxo, apesar de decisão judicial que os vinculava a milícia. A defesa disse que os dois foram exonerados após decisão definitiva e que as nomeações eram legítimas.
Canella também foi preso em flagrante pela Polícia Federal em julho de 2026, na Operação Unha e Carne, depois que um fuzil de uso restrito foi encontrado em seu veículo. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a soltura dias depois, com tornozeleira eletrônica e pedido de esclarecimentos. A defesa sustenta que a arma pertencia à escolta policial. O TRE-RJ deferiu a candidatura por maioria, considerando insuficientes as provas de coordenação com organização criminosa.
Canella nega as acusações. Em declaração à Folha, chamou os questionamentos de “loucura” e “mentira”, disse que é ameaçado por milicianos e traficantes e afirmou que a maior defesa é o voto da população de Belford Roxo.
Ney Santos e o recurso no TSE
Ney Santos é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo por suposta ligação com o PCC e lavagem de dinheiro em esquema envolvendo postos de combustível. É réu em ação penal por comando de organização criminosa e lavagem de dinheiro, ainda sem sentença de primeiro grau, segundo as fontes consultadas.
O TRE-SP deferiu o registro em 15 de setembro por 3 votos a 2. O Ministério Público Eleitoral recorreu ao TSE. O recurso está sob relatoria do ministro Floriano de Azevedo Marques e ainda não foi julgado. Se o tribunal acolher o pedido, o registro pode ser indeferido retroativamente e a vaga obtida nas urnas perde validade.
A defesa de Ney Santos afirma que todas as imputações foram investigadas e arquivadas por falta de prova e classifica as acusações como “factoides requentados”. Em 8 de outubro, o Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu o político, por unanimidade, em processo separado relativo a arma de fogo com numeração adulterada — decisão que não encerra a investigação sobre o PCC.
O que ainda está em aberto
As três candidaturas foram autorizadas pela Justiça Eleitoral e os nomes foram eleitos. Nenhum dos três, nas fontes consultadas, possui condenação definitiva por organização criminosa. O caso de Ney Santos é o único com recurso pendente no TSE capaz de afetar a posse.
Os deputados federais eleitos tomam posse em 1º de fevereiro de 2027. A situação de Ney Santos depende do julgamento do recurso no TSE.