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Sábado, 10 de outubro de 2026

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PF aponta contratos de R$ 208 milhões entre escritório da esposa de Moraes e empresas de Vorcaro

Por Redação
Publicado em 02/09/2026 às 13:25

Documento tornado público em 1º de setembro descreve acordo de 36 parcelas com o Banco Master, minutas com a Viking Participações e proposta de pagamento com cotas de aeronaves; escritório afirma que só houve um contrato e que o ministro foi consultado sobre impedimentos legais.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou nesta terça-feira (1º de setembro de 2026) o sigilo de relatório da Polícia Federal sobre o Banco Master e os contatos de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, com o ministro Alexandre de Moraes e com o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes.

Segundo o documento, os três contratos identificados pela PF entre o Barci de Moraes e empresas ligadas a Vorcaro somam R$ 208 milhões. O primeiro, com o próprio Banco Master, previa R$ 108 milhões líquidos em 36 parcelas de R$ 3 milhões. Os outros dois, de R$ 50 milhões cada, teriam sido firmados com a Viking Participações, empresa associada ao banqueiro. Um desses acordos previa o pagamento de R$ 40 milhões mediante cotas de dois fundos donos de aeronaves: um jato Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, e um helicóptero Airbus EC 155 B1.

O valor bruto do contrato com o Master chega a cerca de R$ 131 milhões quando se incluem os tributos previstos na minuta. Dados da Receita Federal encaminhados à CPI do Crime Organizado indicam que o banco declarou cerca de R$ 80,2 milhões ao escritório entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 — 22 parcelas, interrompidas após a prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, e a liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central no dia seguinte.

A PF afirma que metadados de arquivo extraído do celular de Vorcaro registram edição atribuída ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes” em 15 de janeiro de 2024, antes da assinatura. O escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro foi consultado pelo setor de compliance “na condição de marido da sócia diretora”, para informar se havia impedimento legal, relatoria ou julgamento de interesse do cliente no STF. “Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, diz a nota.

O mesmo escritório nega segundo contrato assinado com a Viking e afirma que “a proposta do Banco Master não foi aceita, nada foi assinado e o contrato original foi extinto com a liquidação do banco”. A PF, por sua vez, descreve minuta datada de 12 de maio de 2025 e tratativas de dação em pagamento com cotas das aeronaves.

O relatório também reúne mensagens e registros de encontros. Em novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou a Moraes se já deveria “estar fora”. Em outra troca, o banqueiro escreveu que tinha “gratidão da minha vida” ao ministro e à família dele. Vorcaro tratava internamente o pagamento ao escritório como “o contrato mais importante” e chegou a orientar quitação “sem nota”, “do jeito que for”, segundo trechos divulgados.

A investigação do Master, no âmbito da Operação Compliance Zero, apura fraudes em cessões de carteiras de crédito. Mendonça é o relator no STF. Até a publicação desta matéria, a assessoria do Supremo e o ministro Alexandre de Moraes não haviam divulgado nota específica sobre o conjunto do relatório. O espaço permanece aberto.

A divulgação do documento não equivale a condenação. Contratos de honorários, por si sós, não configuram crime. O que o relatório coloca em debate público é a extensão da relação financeira, o uso de metadados atribuídos ao ministro, a proposta de pagamento com bens de alto valor e o contraste entre a versão da PF e a do escritório.