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Sábado, 10 de outubro de 2026

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• Leopoldina, Bonifácio e Pedro: a ruptura de 1822 teve mais de um protagonista

O marco de 7 de setembro de 1822 permanece no calendário e na imaginação nacional. A soberania, porém, se construiu antes e depois da cena consagrada às margens do Ipiranga.

Por Redação
Publicado em 07/09/2026 às 14:15
Atualizado em 07/09/2026 às 14:46

 

EDITORIA: Opinião

O Brasil acorda nesta segunda-feira com a rotina do feriado nacional que remete a 7 de setembro de 1822. São 204 anos do episódio conhecido como Grito do Ipiranga — marco simbólico da ruptura política com Portugal. A data organiza desfiles, escolas, quartéis e discursos. Também organiza, com frequência demais, uma versão simplificada do que foi a Independência. 

A versão mais difundida é visual. No quadro Independência ou Morte, concluído por Pedro Américo em 1888 e associado ao Museu do Ipiranga, Dom Pedro aparece heroico, a cavalo, a espada erguida. A tela fixou um imaginário. Não registrou o fato como crônica. Historiadores reiteram que a comitiva vinha de Santos em direção a São Paulo, que o príncipe regente não encenou a cena de gala depois pintada e que os relatos da frase exata não coincidem. Há versões com “Independência ou morte”; há outras, atribuídas a testemunhas da comitiva, com formulações distintas. O que se pode afirmar com segurança é o gesto político: a decisão de romper com as Cortes portuguesas, no contexto de uma crise já aberta. 

A Independência não começa nem termina naquela parada. Em 1808, a corte portuguesa transferiu-se para o Rio de Janeiro sob a pressão napoleônica. Em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves. Em 9 de janeiro de 1822, o Dia do Fico antecipou a recusa de Pedro em regressar a Lisboa. Cartas de Maria Leopoldina e de José Bonifácio de Andrada e Silva pesaram no desfecho de setembro. A aclamação imperial, a guerra de independência em várias províncias e o reconhecimento português — Tratado de Paz, Amizade e Aliança, firmado no Rio de Janeiro em 29 de agosto de 1825 — completam o arco. Sem esse conjunto, o “grito” vira estátua e perde densidade. 

Há, ainda, o que a data não resolveu. A ruptura de 1822 emancipou o Estado brasileiro em relação a Lisboa; não emancipou a maioria da população. A escravidão seguiu. O pacto político do Império privilegiou elites. A cidadania plena foi — e em vários sentidos ainda é — obra incompleta. Celebrar a Independência com honestidade exige esse reconhecimento, sem transformar o feriado em exercício de autoflagelação nem em liturgia ufanista.

Em 2026, o 7 de Setembro caiu na segunda-feira e reabriu o calendário de folgas prolongadas. Em Brasília, o desfile cívico-militar na Esplanada dos Ministérios reuniu as Forças Armadas, escolas e a tribuna dos Três Poderes, com eixos oficiais de soberania, enfrentamento à violência contra a mulher e a Copa do Mundo Feminina de 2027. Em outras capitais, a data também serve a manifestações políticas de sinais opostos. Isso não é acidente: feriado cívico é palco. O risco é o palco engolir o fato. 

Um jornalismo que leva credibilidade a sério não precisa desmontar o símbolo para honrar a história. Precisa distingui-los. O Ipiranga é memória oficial. A Independência é processo — diplomático, militar, jurídico e social. Patriotismo útil é o que cabe na Constituição, no voto, na conta pública e na proteção de direitos. O resto é encenação.

Neste 7 de Setembro, o país pode hasteiar a bandeira sem transformar o passado em cartaz. Soberania se mede menos no volume do grito e mais na qualidade das instituições que restam de pé no dia seguinte.

ÉNOTÓRIO

Credibilidade levada a sério.