No terceiro bloco do Debate PontoPoder, o governador cobrou o tucano por comparação atribuída a médicos; Ciro negou e condicionou a própria desistência à do adversário.
Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) se desafiaram, nesta quarta-feira (9), a renunciar às candidaturas ao Governo do Ceará caso uma fala antiga atribuída ao tucano sobre médicos fosse comprovada — ou, no sentido inverso, caso o petista estivesse mentindo ao sustentá-la. O embate ocorreu no terceiro bloco do Debate PontoPoder, promovido pelo Diário do Nordeste, Verdinha FM e TV Diário, quando o tema Saúde foi sorteado.
Elmano resgatou a atribuição de que Ciro teria comparado médicos a “sal, que é barato e em todo canto tem”. Ciro negou a acusação e propôs: “Eu renuncio a minha candidatura, se você renunciar a sua, se for verdade [a frase supostamente dita no passado].” O governador insistiu que a fala era verdadeira. Ciro então perguntou se Elmano renunciaria caso estivesse mentindo. A resposta do petista, segundo o registro do debate, foi: “Renuncio, evidentemente, porque é verdade.”
O bloco seguiu com acusações cruzadas sobre entregas e pendências na saúde estadual. Em outras falas da mesma noite, Ciro afirmou que o atual governo “não começou nem terminou nenhum hospital regional” e criticou o funcionamento de unidades. Elmano rebateu com obras e parcerias com o governo federal, inclusive tratamento oncológico no interior.
A frase citada no palco não é nova. Circula desde os anos 1990, associada a uma greve de médicos no governo Ciro. Em 2013, ao assumir a Secretaria da Saúde do Ceará, Ciro classificou a comparação com sal como frase que “jamais proferiria” e atribuiu a origem da história a um embate com liderança sindical. Em 2022, após o tema voltar à imprensa, reiterou que se tratava de “fake news antiga” retomada por adversários. Sites de campanha e checagens posteriores também registram a negativa persistente. A ÉNotório não localizou, nas fontes consultadas nesta pauta, gravação ou documento contemporâneo que comprove a autoria da frase.
O desafio de desistência, portanto, permanece no campo da retórica de debate. Não há, até o momento, ato formal de renúncia, prazo ou condição juridicamente vinculante. A campanha segue; o eleitor cearense passa a ter, além da disputa de gestão na saúde, um teste público de memória política.
A declaração remonta a um episódio de 1992, durante uma intensa greve de médicos no Ceará enquanto Ciro era governador. Conforme registros históricos e esclarecimentos do próprio Ciro, a autoria da frase ofensiva sobre os profissionais serem “como sal, que é branco, barato e se encontra em qualquer esquina” pertence a um dirigente sindical da época (conhecido como Chico Passeata), e não ao então governador.
O Surgimento do Boato do “Sal”Foi no calor dessas assembleias e discussões públicas que a polêmica frase surgiu. De acordo com os esclarecimentos posteriores de Ciro e de lideranças sindicais, um dirigente da categoria, Chico Passeata (então presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará), usou a expressão em uma assembleia para alertar os colegas sobre como o governo os enxergava — dizendo algo como: “Para o governo, médico é igual a sal: branco, barato e tem em qualquer esquina”.
Consequências Políticas
A greve terminou após exaustivas negociações, mas a cicatriz política permaneceu. A pecha de “inimigo dos médicos” passou a ser utilizada sistematicamente contra Ciro em quase todas as suas campanhas eleitorais subsequentes à Presidência da República (como em 2002, 2018 e 2022). O episódio voltou à tona também em 2013, quando ele assumiu o cargo de Secretário de Saúde do Ceará e precisou se reaproximar formalmente das entidades médicas locais para pacificar a relação histórica.