Há um modo de ler a cifra sem se deixar engolir por ela. Quase R$ 5 bilhões não cabem na conta corrente de um escritório, nem no caixa de uma emissora. Cabem, porém, numa mesa que devolve parte do que tira e deixa o jogador apostar de novo. Foi assim, segundo os papéis que o próprio advogado Willer Tomaz de Souza levou à Justiça de São Paulo, que um cliente VIP da Blaze chegou a jogar quase R$ 5 bilhões em 2025.
O comprovante anual da plataforma, anexado à ação na 44ª Vara Cível do Foro Central, registra R$ 4,800 bilhões em ganhos e R$ 4,963 bilhões em perdas no cassino online. A segunda coluna é o mote desta matéria: quase cinco bilhões apostados — e perdidos — ao longo de um ano. A diferença entre as duas é o saldo líquido negativo de cerca de R$ 163 milhões. Em apostas esportivas, o mesmo material aponta lucro de R$ 39 mil. Somados ganhos e perdas, a petição fala em cifra bruta próxima de R$ 10 bilhões. São duas voltas na mesma ficha. Não são dois patrimônios.
Willer Tomaz informa que “os valores divulgados na reportagem não correspondem à realidade” e que o tema é “de natureza estritamente pessoal”. A Blaze não se manifestou até o fechamento. O espaço segue aberto.
Quem é o advogado da conta
Willer Tomaz de Souza é titular do escritório Willer Tomaz Advogados Associados, em Brasília, e do Sistema Difusora de Comunicação, no Maranhão. A trajetória pública mistura banca, rádio, televisão e trânsito político na capital. É também o nome que a Polícia Federal, no relatório da operação de 4 de agosto de 2026 sobre descontos indevidos no INSS, descreveu como “hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados. Ele nega o enquadramento. Nada disso, por si só, explica a mesa. Explica o tamanho da renda que a casa aceitou como porta de entrada.
Segundo o Metrópoles, que teve acesso aos autos, a relação com a Blaze começa em 2023, ainda antes da regulamentação federal. Para virar cliente de alto valor, o advogado teria enviado extratos de seus escritórios e da emissora maranhense. A conta subiu até o nível 171 do programa de fidelidade. Havia um funcionário da casa — descrito como concierge holandês — dedicado a atendê-lo pelo WhatsApp.
Como se joga quase R$ 5 bilhões sem depositar R$ 5 bilhões
A aritmética é a parte que o debate público costuma atropelar.
Depósitos em 2025, no relatório citado: R$ 300 milhões.
Saques no mesmo ano: R$ 137 milhões.
Perdas no cassino: R$ 4,963 bilhões.
Ganhos no cassino: R$ 4,800 bilhões.
O dinheiro que entra na plataforma é o depósito. O dinheiro que some de fato, no saldo do ano, está na diferença entre o que entrou e o que saiu — e no prejuízo líquido de R$ 163 milhões. Os quase R$ 5 bilhões são o volume que passou pela mesa: ficha que ganha, volta, perde, volta. Quem lê “jogou cinco bilhões” e imagina cinco bilhões em espécie saindo de um cofre lê errado. Quem lê a cifra e conclui que “não houve jogo de verdade” também lê errado. Houve jogo o bastante para a casa registrar quase cinco bilhões em perdas numa única conta.
Como era uma sessão
A reportagem que abriu o processo descreve o ritmo. Não era uma noite inteira, todos os dias. Eram janelas curtas, com valores fora da escala de qualquer apostador comum.
No dia 29 de julho, segundo esses relatos dos autos, a conta operou das 2h às 4h. Nesse intervalo, 11 depósitos de R$ 100 mil. Depois, centenas de giros de roleta com apostas acima de R$ 50 mil. A sessão teria zerado o que acabara de entrar.
Em 19 de janeiro de 2026, outro recorte: depósito de R$ 500 mil de manhã, saque de R$ 1 milhão fracionado em dez vezes, bônus de fidelidade de R$ 325 mil — descrito pela reportagem como vedado pela legislação — e perdas de R$ 725 mil no mesmo dia. A coluna do Metrópoles liga essa data a um voo de volta dos Estados Unidos no qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria viajado no mesmo jato. A viagem é contexto da agenda do advogado. Não é peça da ação contra a Blaze.
Como a conta pediu para jogar maior
O “como” também está nas mensagens que a defesa juntou para provar, depois, que a casa teria sido imprudente.
Em janeiro de 2025, sempre segundo o Metrópoles, Willer reclamou do reconhecimento facial em cada saque de R$ 100 mil. “Isso dificulta muito, amigo.” Informado de que a biometria vinha da regulação federal, pediu limite de R$ 500 mil por saque: sem isso, “inviabiliza o tamanho do meu jogo”. O atendente, na narrativa da reportagem, teria respondido que ele não seria mais “amolado” com o reconhecimento facial e poderia fazer quantos pedidos quisesse. A coluna classifica a solução como proibida.
Há outra fala atribuída ao cliente: duvidar que alguém no mundo tivesse dado mais lucro à casa — “nem mesmo meu amigo Njr”, leitura provável de Neymar Jr., então associado à marca. E o pedido de uma linha de crédito no modelo de Las Vegas, com menção ao Wynn, porque “autoridades reguladoras” e bancos estariam questionando as movimentações.
Em março de 2025, com o ritmo em queda, o mesmo concierge teria cobrado o motivo. A resposta atribuída a Willer inverte o sinal: os números eram “extremamente altos”, em giro e em perdas, e ele esperava da plataforma “algum tipo de verificação ou sugestão relacionada ao jogo responsável”. Quatro dias depois de receber o relatório do ano, a minuta da ação já existia. Antes do protocolo, segundo a mesma fonte, o advogado ofereceu acordo de 70% das perdas e lembrou o risco de exposição pública.
Como a tese mudou de mesa para vício
A ação entrou em agosto de 2026 — cerca de três dias antes da operação da PF de 4 de agosto. O valor da causa é R$ 20 milhões, não os R$ 163 milhões do prejuízo alegado. Representa-o o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, sócio do escritório. A peça passou a falar em jogo patológico “em grau extremo”. Foi juntado laudo de julho do psiquiatra Diego Canelhas, que descreve o paciente como “iniciando tratamento” e escreve que os valores “falam por si só”. Prints sem data mostram pedidos de bloqueio definitivo e a frase “já tenho diagnóstico de ludopatia”.
Há um fato objetivo no caminho inverso: a reportagem afirma que não há registro de Willer no sistema federal de autoexclusão, ferramenta que impede nova conta, depósito, aposta e publicidade a quem se cadastra. A tese da ação ainda precisa convencer o juízo de que a casa descumpriu dever de proteção — e de que esse descumprimento manda devolver o que o cliente perdeu jogando.
Nesta terça-feira (29/09/2026), o juiz Guilherme Madeira Dezem rejeitou o bloqueio de cerca de R$ 145 milhões em bens da Blaze e de R$ 500 mil por danos morais. Não viu prova de insolvência ou esvaziamento patrimonial. Não há julgamento de mérito.
O outro lado do balcão
O mesmo nome que joga também aparece do lado de quem lucra com o mercado. Willer confirmou ser cotista da Capital Pretium S.A., holding da RioPag, que processava pagamentos de bets credenciadas pela Loterj. Em 23 de setembro de 2026, a loteria fluminense rescindiu o contrato por inadimplemento. Ele diz atuar como advogado da empresa, sem exercer a gestão. São frentes distintas da ação contra a Blaze. Compõem, porém, o retrato de um advogado que conhecia o setor por dentro enquanto a conta dele girava do lado de fora.
Reportagens desta terça apontam que a PF passou a olhar as apostas sob a hipótese de lavagem. A informação é jornalística; não foi localizado comunicado da corporação com esse recorte. Willer nega o tipo penal e afirma que as movimentações ocorreram em conta bancária própria, “transparente e rastreável”.
O que a cifra ainda não responde
Quase R$ 5 bilhões na mesa de um único cliente dizem o tamanho do giro que o mercado regulamentado ainda não soube, ou não quis, interromper. Não dizem, sozinhos, origem do dinheiro, existência de vício juridicamente reconhecido, nem responsabilidade da casa. Isso está sob o juiz em São Paulo e, em outra chave, sob investigação. Enquanto não houver sentença, o que se pode afirmar com segurança é o mecanismo: um advogado virou conta VIP, pediu para jogar maior, girou quase cinco bilhões no cassino em um ano, perdeu R$ 163 milhões no saldo e foi à Justiça pedir o dinheiro de volta.
A ÉNotório registra o que os documentos descrevem, o que o juízo já recusou e o que o advogado contestou. O resto é tese. Tese não é sentença.