Pular para o conteúdo
Segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Menu

Ministros do STF dobram pressão para Fachin adiar sessão sobre Alexandre de Moraes

Apesar do movimento, presidente do Supremo mantém a previsão de discutir a questão envolvendo o colega na terça-feira, 15; Sessão pode ser breve por pedido de suspensão temporária da discussão

Por Redação
Publicado em 13/09/2026 às 20:24
Atualizado em 13/09/2026 às 20:39

A menos de 48 horas da sessão extraordinária que vai decidir o destino de um material da Polícia Federal envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, um grupo de colegas de Corte intensificou nesta semana a pressão sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, para que o julgamento seja adiado. Apesar da ofensiva, Fachin confirmou nesta segunda-feira (13/9) a manutenção das duas datas já agendadas: 15 de setembro para o caso Moraes e 23 de setembro para o caso do ministro André Mendonça, sinalizando que pretende levar as duas discussões ao plenário antes do primeiro turno das eleições, em 5 de outubro.

O que está em jogo na sessão de terça-feira

A pauta de 15 de setembro não é, tecnicamente, um julgamento de mérito sobre a conduta de Moraes, mas uma discussão prévia com três frentes: a legalidade da ordem dada por Mendonça à Polícia Federal para aprofundar a análise do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master; a validade do material produzido a partir dessa ordem como prova; e um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para anular todo o procedimento, sob o argumento de que um ministro não pode investigar um colega de Corte sem deliberação prévia do colegiado.

O relatório da PF, de 218 páginas, entregue ao STF em agosto, trouxe registros de contatos entre Vorcaro e um número salvo na agenda do banqueiro como “Alexandre de Moraes Brasília”, incluindo referências a encontros e trocas de mensagens ao longo de 2024 e 2025. Documentos anexados ao processo também mostram contratos entre o Banco Master e a Viking Participações com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro — um firmado em janeiro de 2024, em valores que somam mais de R$ 100 milhões líquidos ao longo de três anos, e outro, de R$ 50 milhões, assinado em maio de 2025. Horas antes de ser preso preventivamente, em 17 de novembro de 2025, Vorcaro teria trocado mensagens com o contato identificado como Moraes.

Procurado pelas equipes de imprensa que cobrem o caso, Moraes nega qualquer envolvimento pessoal com o banqueiro e classifica a ofensiva contra ele como parte de uma reação de Mendonça, indicado ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O ministro chegou a pedir a Fachin que Mendonça seja investigado no âmbito do inquérito das fake news, sob a alegação de abuso de autoridade e improbidade administrativa por ter determinado a diligência contra um colega de Corte sem levar o caso ao plenário previamente.

A articulação pelo adiamento

Segundo apurado por veículos que cobrem o Judiciário, ministros próximos a Moraes — entre eles Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino — pressionam Fachin por duas frentes: adiar a sessão de terça-feira e reunir, em uma única pauta, os casos de Moraes e Mendonça, sob o argumento de que os dois processos seriam “indissociáveis” e que julgá-los separadamente geraria risco de decisões contraditórias. Reforça o argumento o fato de o prazo para Mendonça se manifestar sobre as acusações contra ele só se encerrar em 21 de setembro — depois, portanto, da data marcada para discutir a conduta de Moraes — e de o grosso da documentação do caso Banco Master ter sido liberado apenas na noite de 11 de setembro, deixando pouco tempo de análise aos ministros.

Do outro lado, um grupo identificado com Mendonça — no qual são citados Luiz Fux e Kássio Nunes Marques — resiste à junção dos processos e defende que a sessão de terça-feira siga como planejada. Cármen Lúcia é apontada como o voto de equilíbrio na Corte. Já circulam entre ministros pedidos, ainda não confirmados oficialmente, para que o julgamento ocorra a portas fechadas, sem transmissão pela TV Justiça — o que, segundo aliados de Moraes, evitaria expor divergências entre os colegas publicamente, mas que Fachin reconhece poder “passar uma impressão negativa” sobre a transparência do tribunal.

Fachin rejeitou formalmente o pedido de julgamento conjunto, sob o argumento de que os dois processos têm “contornos e objetos bem delineados” que permitem avaliação separada e de que o caso de Mendonça ainda está em fase de instrução preliminar. Ainda assim, o presidente do STF admite que pedidos de vista — mecanismo que permite a um ministro suspender a análise para exame mais aprofundado — podem adiar a decisão para depois do período eleitoral, alterando o calendário e o próprio impacto político dos julgamentos. Diante do temor de um confronto público entre os colegas, Fachin já teria pedido aos ministros “um nível mínimo de urbanidade” durante a sessão, sem, no entanto, obter garantias de que o climă não vai esquentar.

Um Supremo sob suspeita, a um mês das urnas

O episódio expôs, nos últimos dias, uma teia mais ampla de relações entre autoridades do Judiciário e o Banco Master, hoje sob intervenção após o colapso da instituição. Documentos tornados públicos indicam que o ministro Dias Toffoli deixou a relatoria de um processo ligado ao banco após reportagens sobre repasses a um resort no Paraná do qual seria sócio; que um filho do ministro Kássio Nunes Marques recebeu consultoria paga por empresas ligadas ao Master; e que um filho do ministro Luiz Fux teria recebido convites de Vorcaro, embora o ministro negue o fechamento de qualquer negócio. Mendonça, por sua vez, confirma ter recebido o banqueiro pessoalmente em pelo menos uma ocasião, em março de 2025, para tratar de precatórios.

Com o Supremo dividido, sob forte exposição pública e a menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, a expectativa é que a sessão de terça-feira defina não apenas o destino imediato do material da PF sobre Moraes, mas também o tom da relação entre os ministros nas semanas decisivas que antecedem o pleito. Até a publicação desta matéria, o STF não havia se pronunciado oficialmente sobre um eventual adiamento, e a pauta de 15 de setembro seguia mantida.