Investigadores relatam desconforto com a forma da requisição; procurador-geral da República pediu anulação da decisão; relator encaminhou o tema ao colegiado.
A Polícia Federal relatou que o ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal das investigações ligadas ao Banco Master (Operação Compliance Zero), convocou reunião em 24 de agosto de 2026 e apresentou, de surpresa, despacho já pronto determinando a elaboração, em 72 horas, de relatório sobre mensagens e anotações extraídas do celular de Daniel Vorcaro.
O documento produzido pela PF, com sigilo retirado na terça-feira (1º de setembro), identifica o contato salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e descreve envios — em geral capturas de tela de visualização única a partir do bloco de notas — em que Vorcaro trata de investigações, pede intercessão junto a “Andrei e Paulo” e, dois dias antes de ser preso em novembro de 2025, pergunta se já deveria deixar o país.
Setores da PF avaliaram a ordem como excesso e como tentativa de conduzir ato que caberia à polícia judiciária. Havia temor interno de que a leitura do material fosse interpretada como início de investigação policial contra ministro do STF, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sem decisão prévia do plenário — o que, segundo esses relatos, poderia contaminar outras apurações do caso Master.
No próprio relatório, a corporação afirma ter se limitado a identificar e expor elementos já existentes no material arrecadado, “sem quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público”. A perícia ressalva que a análise, no prazo de 72 horas, não foi exaustiva.
Na noite de 1º de setembro, Gonet pediu a nulidade da decisão de Mendonça. Segundo a PGR, o relator não pode usar a polícia judiciária “como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas” e a ordem teria sido dada “sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial”. O próprio Gonet é citado em trechos em que mensagens a ele atribuídas circulam por intermediários; procurado, não se manifestou publicamente sobre o mérito pessoal.
Mendonça determinou o levantamento do sigilo e escreveu que o “caminho inevitável” dos autos é o plenário, em sessão presencial, pública e transparente, em data a ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Também deu vista à PGR. A publicação do relatório e o pedido de sessão pública aumentaram a tensão no tribunal; veículos relatam encontro tenso entre Moraes e Mendonça no mesmo período.
O caso Master já teve outro episódio de relatoria: em fevereiro, relatório da PF sobre mensagens envolvendo a empresa Maridt — da qual o ministro Dias Toffoli figura como sócio — levou Toffoli a deixar o feito, sorteado então para Mendonça. Aquele material foi arquivado pelo presidente do STF.
Nesta quarta-feira (2), Mendonça confirmou ter recebido Vorcaro uma única vez, em março de 2025, e disse ter-se limitado a ouvi-lo sobre tutela provisória de precatórios então com pedido de vista. Isso é distinto das mensagens atribuídas a Moraes.
Até a publicação desta matéria, não havia data marcada para o plenário nem decisão colegiada sobre abertura de inquérito, arquivamento ou anulação da ordem. A análise jurídica do colegiado, se ocorrer, definirá se o relatório permanece nos autos e sob qual regime.