EDITORIAL
O silêncio de Kakay
Há advogados que sustentam teses. Há advogados que sustentam palcos. Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, passou anos no segundo ofício com a mesma desenvoltura com que atua no primeiro: opinar sobre o Supremo, sobre a política, sobre o limite da toga e o excesso da tribuna. Quando o Judiciário tossia, o microfone dele acendia.
Agora o Supremo não tossiu. Partiu-se.
De um lado, André Mendonça tirou o sigilo de relatório da Polícia Federal sobre interlocuções ligadas a Daniel Vorcaro e ao caso Master e pediu que o tema fosse ao plenário. Do outro, Alexandre de Moraes encaminhou a Edson Fachin pedido para investigar o colega por, em tese, improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução do Master e do escândalo do INSS. Fachin tirou o pedido do inquérito das fake news, deu prazo de cinco dias e absorveu a crise na Presidência da Corte. Analistas falam em crise sem precedente. A imprensa internacional já descreve o embate. O 7 de Setembro tentou engolir o episódio.
E Kakay?
Até aqui, não há registro público recente de uma fala à altura do que ele mesmo ensinou a cobrar: nomear o problema, separar processo de palanque, dizer qual lado da Constituição está sendo dobrado. O silêncio, neste caso, não é virtude forense. É dado político. Quem se habituou a traduzir o STF para o país agora escolhe não traduzir o momento em que dois ministros se investigam mutuamente.
Isso não autoriza inventar o que ele pensaria. Autoriza perguntar por que a voz que nunca faltou nas crises alheias some na crise da casa em que milita. O Supremo não precisa de torcida. Precisa de critério. Precisa que a advocacia de ponta — justamente a que vive de acesso, de corredor e de reputação — explique ao leigo a diferença entre relatoria, relatório de inteligência, valor probatório e acerto de contas pessoal.
Enquanto isso não vem, o país assiste a um duelo de togas com o vocabulário de campanha. Moraes acusa direcionamento. Mendonça expõe interlocução. Fachin pede serenidade. O resto calcula voto. E o comentário que sobra, na ausência dos que sempre falaram, é o mais pobre: time A contra time B.
A comunidade jurídica brasileira espera ansiosamente pelas sábias palavras de Kakáy e se Ele conseguiu acompanhar e atualizar a comunidade jurídica sobre a Lava-Jato. Sabará também com as cautelas necessárias e o juízo de valor equilibrado avaliar a atual crise do Supremo e sugerir saídas para o país de dificuldades sempre SUPREMAS.