Sessão que analisa eventual investigação sobre Alexandre de Moraes é marcada por bate-boca entre ministros, questionamentos sobre a condução do processo e críticas à atuação da Polícia Federal
Brasília — O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou nesta terça-feira (15) uma das sessões mais delicadas de sua história recente. O plenário analisa se deve haver prosseguimento de investigação relacionada ao ministro Alexandre de Moraes a partir de informações reunidas pela Polícia Federal sobre sua suposta relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A sessão extraordinária começou pela manhã e foi interrompida às 13h pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, em razão do início do horário eleitoral, cuja transmissão ocupa a programação da TV Justiça. A previsão inicial é de retomada às 15h.
Mais do que uma discussão sobre as mensagens atribuídas a Moraes e Vorcaro, porém, a primeira metade do julgamento revelou uma profunda divisão interna no Supremo. Ministros trocaram críticas, questionaram decisões tomadas individualmente e protagonizaram momentos de forte tensão no plenário.
O que está em análise
O ponto central é o relatório produzido pela Polícia Federal a partir de dados relacionados ao celular de Daniel Vorcaro. Segundo as informações levadas ao tribunal, foram identificadas 52 mensagens enviadas pelo ex-banqueiro a um contato atribuído a Alexandre de Moraes, em conversas que ocorreram entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, antes da primeira prisão de Vorcaro.
Entre os assuntos mencionados nas mensagens estão pedidos de ajuda relacionados às investigações do Banco Master, referências a autoridades policiais e integrantes do Ministério Público e questionamentos de Vorcaro sobre a possibilidade de deixar o país para evitar a prisão. As informações, contudo, não permitem afirmar, por si só, que Moraes tenha cometido crime. Além disso, segundo relatos sobre o material, a PF teve acesso às mensagens enviadas por Vorcaro, mas não às eventuais respostas de Moraes.
O plenário também deverá examinar o pedido da Procuradoria-Geral da República para que o relatório seja considerado nulo e decidir se existem elementos que justifiquem o prosseguimento de uma investigação.
Fachin tenta estabelecer os limites do julgamento
Na abertura dos trabalhos, o presidente do STF, Edson Fachin, procurou estabelecer um tom institucional para a sessão. O ministro afirmou que o tribunal deveria julgar fatos e questões jurídicas, e não transformar o julgamento em um confronto pessoal entre integrantes da Corte.
Fachin também defendeu que decisões dessa natureza sejam submetidas ao plenário, ressaltando a importância da autoridade institucional do Supremo e da preservação de sua independência.
A tentativa de organizar o julgamento, entretanto, rapidamente deu lugar a uma disputa sobre a própria condução do processo.
Dino questiona atuação de Fachin
O ministro Flávio Dino criticou a decisão de Fachin de centralizar a condução dos procedimentos relacionados ao caso Master. Dino questionou a forma como a Presidência do Supremo passou a interferir em processos que estavam sob responsabilidade de outros ministros e defendeu que questões de relatoria fossem solucionadas de acordo com as regras regimentais.
A discussão ganhou força quando Gilmar Mendes levou ao plenário questionamentos relacionados à condução dos processos. Gilmar afirmou que não havia defendido que Fachin simplesmente assumisse a relatoria do caso e sustentou que a definição deveria observar o procedimento de sorteio.
Moraes e Mendonça protagonizam o momento mais tenso
Um dos momentos mais duros da manhã ocorreu quando Alexandre de Moraes e André Mendonça entraram em confronto direto.
Moraes voltou a defender que as questões envolvendo sua conduta e as decisões de Mendonça fossem analisadas conjuntamente. O ministro também contestou a atuação do colega na produção e divulgação do relatório da Polícia Federal.
Mendonça reagiu e acusou Moraes de apresentar informações falsas. O embate levou a uma das cenas mais tensas da sessão, com os dois ministros trocando acusações em plenário.
Moraes também classificou o relatório da PF como uma “farsa” e sustentou que a apuração teria motivação político-eleitoral. O ministro negou ter mantido os diálogos apresentados no relatório e afirmou que a investigação conduzida por Mendonça seria uma forma de retaliação política.
Críticas à Polícia Federal
A atuação da Polícia Federal também entrou no centro do debate.
O ministro Luiz Fux criticou o que considerou uma extrapolação das atribuições da corporação e falou em “desvio de finalidade”. André Mendonça, por sua vez, fez críticas duras à atuação da PF e chegou a mencionar a existência de uma espécie de “polícia paralela” voltada ao monitoramento de integrantes do Supremo.
As manifestações evidenciaram que o julgamento ultrapassou a discussão sobre Moraes e Vorcaro e passou a envolver o próprio funcionamento das instituições responsáveis pela investigação.
Nunes Marques deixa o julgamento
Outro episódio importante ocorreu logo no início dos trabalhos. O ministro Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de participar do julgamento.
A decisão ocorreu após a divulgação de informações envolvendo supostos pagamentos ao advogado Kevin Marques, filho do ministro, relacionados ao Banco Master. Nunes Marques negou qualquer vínculo seu ou de seu filho com o banco e afirmou que nunca recebeu remuneração da instituição.
A saída de Nunes Marques reduz o número de ministros que poderão participar da decisão e acrescenta outro elemento à complexidade do julgamento.
Gilmar e Fux também entram em choque
O decano Gilmar Mendes protagonizou outro momento de tensão ao confrontar críticas feitas por Luiz Fux e André Mendonça sobre a atuação da Polícia Federal e a condução das investigações.
Gilmar também defendeu que as questões relacionadas a Moraes e Mendonça fossem examinadas de forma conjunta, entendimento que encontrou respaldo em Moraes e Dino, mas que havia sido rejeitado anteriormente por Fachin.
O caso envolvendo Mendonça deverá ser analisado em outra data, separadamente. A previsão é que o plenário trate desse procedimento em 23 de setembro.
Uma pausa inusitada
Pouco antes das 13h, Flávio Dino lembrou que a transmissão da sessão precisaria ser interrompida para a exibição do horário eleitoral. Fachin pediu a Gilmar Mendes que concluísse sua manifestação.
Gilmar respondeu com uma brincadeira sobre a audiência das emissoras durante o horário eleitoral. A observação provocou risos no plenário em meio a uma sessão marcada, até aquele momento, por sucessivos confrontos.
Às 13h, Fachin suspendeu oficialmente os trabalhos.
O que ficou para a tarde
A primeira parte da sessão terminou sem que o Supremo chegasse ao ponto central de decidir definitivamente se deve ou não autorizar o prosseguimento de uma investigação contra Alexandre de Moraes.
O que ficou evidente, entretanto, foi a existência de uma divisão profunda entre os ministros sobre três questões: a validade do relatório da Polícia Federal, a forma de condução das investigações envolvendo integrantes do próprio Supremo e os limites da atuação individual dos ministros diante de conflitos que atingem a Corte como instituição.
A retomada deverá definir os próximos passos do julgamento. O STF terá de decidir, além das questões processuais, se os elementos reunidos pela PF são suficientes para justificar a continuidade das apurações ou se o procedimento deverá ser anulado, como pediu a Procuradoria-Geral da República.
O episódio já entrou para a história do tribunal por colocar, de maneira inédita, o próprio Supremo diante da possibilidade de investigar formalmente um de seus integrantes. E, na primeira metade da sessão, ficou claro que o julgamento de Moraes também se transformou em um julgamento sobre os limites, os métodos e a própria autoridade da Corte.