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Segunda-feira, 7 de setembro de 2026

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Luiza Trajano: juros e bets atrapalham o varejo e avançam sobre a classe mais simples

Por Redação
Publicado em 31/08/2026 às 11:03

A empresária falou no Startup Summit. O diagnóstico do setor: o dinheiro que ia para a loja está indo para a plataforma de aposta.

Luiza Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, associou nesta quarta-feira (26), em Florianópolis, a dificuldade de parte do varejo brasileiro a dois fatores: a taxa de juros e o avanço das apostas online. “Os juros atrapalham, as bets atrapalham. As bets que hoje estão indo para a classe mais simples”, disse a empresária a jornalistas no Startup Summit, evento do Sebrae.

A frase descreve um deslocamento de renda. Quem apostava pouco ou não apostava passou a destinar parte do orçamento — da classe média e da classe baixa — ao jogo. Esse realocamento não cria estoque, não paga fornecedor e não reabre loja. Sai do consumo e entra na plataforma.

O Magazine Luiza registrou prejuízo de R$ 51,4 milhões no segundo trimestre de 2026. Trajano relativizou o quadro: “Tem alguns varejos que estão indo muito bem, já outros varejos que não, mas eu sempre vivi altos e baixos de varejo.” A companhia, segundo ela, responde com centros de distribuição mais perto do cliente e aluguel de galpões já construídos.

O tema não ficou só no balcão. Reportagem da CartaCapital mostrou que o Magalu criou programa de prevenção depois de detectar, entre os cerca de 35 mil colaboradores, empréstimos em alta, pedidos de demissão e relatos de perseguição por agiotas. “Estávamos perdendo nossos colaboradores para agiotas”, resumiu Trajano no lançamento de uma pesquisa. A diretora de pessoas Patricia Pugas descreveu funcionários que usavam o salário inteiro para jogar. Cerca de 12 mil colaboradores já acessaram o curso interno “Saindo do Jogo”.

Os números nacionais sustentam o recorte. O Comsefaz estima que as bets retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias em 2025. A consultoria Strategy& (PwC) projeta entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões por ano que deixam de ir a bens, serviços ou poupança. O Instituto para o Desenvolvimento do Varejo pede restrição à publicidade das casas. O IEPS estima custo anual à saúde associado ao jogo problemático na casa das dezenas de bilhões.

A expressão da arte — “um câncer para o Brasil” — é o tom do debate eleitoral, usado de forma explícita pelo presidenciável Romeu Zema (Novo). Não é citação de Luiza Trajano. O que ela afirmou, com precisão de varejista, é mais seco: as bets atrapalham o comércio e chegaram à classe mais simples.

Na quinta-feira (27), o CEO do Magalu, Frederico Trajano, reforçou o ponto em encontro de varejistas em São Paulo: questionou o emprego e o valor gerado pelas bets e disse ter visto, na África, “problema de saúde econômica” que o Brasil pode repetir em dois ou três anos.

O rito político segue no Congresso, com projetos para vetar propaganda e tratar apostas como produto de risco à saúde. Até lá, o efeito no caixa do varejo já está medido no balanço e no orçamento doméstico.