A Polícia Federal atribui a Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master e nome ligado ao cartão consignado Credcesta, a elaboração de carteiras de crédito consideradas fraudulentas que teriam sido cedidas pelo Master ao BRB, banco do governo do Distrito Federal. As informações constam de petição encaminhada ao ministro André Mendonça, relator no STF da Operação Compliance Zero, e ficaram públicas após a retirada de sigilo de documentos do caso.
Segundo a PF, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) tidas como falsas. Uma auditoria citada na peça estima prejuízo de pelo menos R$ 5 bilhões ao banco público. A polícia afirma que, a partir de janeiro de 2025, as carteiras “aparentemente passaram a ser elaboradas pelo próprio Augusto Lima”. Antes, parte dos consignados teria passado por associações de servidores da Bahia depois associadas a Lima e pela consultoria Tirreno, que prestou serviços ao Master no primeiro semestre de 2025.
A representação reproduz mensagens em que Lima, na leitura da PF, participa das tratativas Master–BRB e tranquiliza Daniel Vorcaro sobre as carteiras. Vorcaro, segundo os investigadores, recorreria a Lima para que o banco público liberasse pagamentos ao Master. Há registro de reunião prevista em 28 de maio de 2025 com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, envolvendo Lima e Henrique Peretto, apontado como controlador da Tirreno.
A PF também considera suspeitos repasses do Master à Terra Firme, empresa do grupo de Lima. A Folha já havia noticiado R$ 186 milhões à Terra Firme da Bahia entre 2022 e 2025 e quase R$ 74 milhões a uma filial. No documento agora público, pagamentos acima de R$ 3 milhões “coincidem, em vários momentos, com as interferências de Augusto Lima perante o BRB”, no dizer da polícia. Notas reproduzidas na peça incluem R$ 3,66 milhões (ago/2024) e um lote de cerca de R$ 7 milhões (abr/2025).
A PF registra ainda que, em novembro de 2024, o próprio BRB já via inconsistências: uma carteira Credcesta com valor contábil de R$ 179,6 milhões teria tido só R$ 110 milhões considerados aptos. A peça tem 82 páginas, data-base de fevereiro de 2025 no texto e assinatura digital de delegada em 18 de fevereiro de 2026; pedia quebra de sigilo bancário e fiscal.
Lima foi preso em novembro de 2025 na Compliance Zero, solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira. Paulo Henrique Costa também foi alvo de fase posterior da operação. Ninguém nesses trechos está condenado por esta petição.
O outro lado. A defesa de Augusto Lima “rechaçou de forma veemente” o conteúdo. Diz que não há fundamento para imputar os ilícitos; que as alegações são do início da apuração e, após dez meses, “não se sustentam”; que Lima jamais tratou com representante do BRB sobre carteiras falsas, não assinou cessões, não prestou informação falsa ao Banco Central e não era responsável pela contabilidade do Master. Afirma contratos regulares com a Terra Firme, serviços prestados, e que a PF já teria afastado a tese das associações. Destaca que Lima deixou sociedade e direção do Master em 28 de maio de 2024, segundo documentação do BC — um ano e seis meses antes da operação de 18 de novembro de 2025. Declara-se à disposição das autoridades e confiante na inocência.
Situação atual: peça investigativa pública; contraditório da defesa registrado; mérito no STF/PF. Próximos passos dependem das diligências autorizadas pelo relator.