A decisão do ministro do STF foi motivada por declarações públicas de Valdemar Costa Neto (PL), que admitiu a interferência de dirigentes partidários na destinação do Orçamento da União.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que os presidentes de 21 partidos políticos com representação no Congresso Nacional prestem esclarecimentos formais, no prazo de 10 dias úteis, sobre a suposta existência de “cotas” ou mecanismos de controle de emendas parlamentares por dirigentes que não exercem mandato legislativo.
A decisão foi proferida no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 854, processo que tramita desde 2021 sob a relatoria de Dino e que visa garantir a transparência e a rastreabilidade na execução das emendas ao Orçamento Geral da União.
O gatilho: As declarações de Valdemar Costa Neto
A movimentação do STF ocorre após uma entrevista concedida pelo presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, ao programa Estúdio i, da GloboNews.
Ao ser questionado sobre a influência de caciques partidários na distribuição das verbas orçamentárias, Valdemar confirmou que dirigentes de legendas interferem diretamente na destinação desses recursos e indicam emendas — prática que, segundo ele, também é adotada por presidentes de outras siglas.
Para o ministro Flávio Dino, as falas de Valdemar acenderam um alerta grave sobre o desvio de finalidade constitucional das emendas:
“Caso procedentes, [as declarações] constituem uma novidade relevante nestes autos, que, tramitando desde 2021, não contém registro dessa modalidade de emendas ao Orçamento Geral da União, isto é, emendas de titularidade ou ‘cedidas’ aos presidentes de partidos políticos”, destacou o ministro em seu despacho.
O que diz a Constituição e o que o STF quer saber
Pelo ordenamento jurídico brasileiro, a proposição de emendas ao orçamento é uma prerrogativa exclusiva e inalienável de deputados federais e senadores eleitos. Dirigentes de partidos, caso não ocupem cadeiras no Congresso, não possuem qualquer direito legal sobre esses recursos.
Diante disso, Dino notificou os presidentes de 21 partidos (entre eles PT, PL, MDB, União Brasil, PP, PSD e PSOL) para responderem às seguintes perguntas de forma oficial:
Existência de cotas: O presidente do partido dispõe de reservas ou mecanismos de alocação de emendas?
Operacionalização: Qual a natureza e a finalidade desse mecanismo, e quem autoriza a sua utilização?
Base jurídica: Qual é o fundamento jurídico da prática e como ela é formalizada?
Rastreabilidade: Qual é o procedimento exato utilizado para definir e destinar esses recursos públicos?
Próximos passos e cerco às emendas
O prazo de 10 dias úteis começa a contar a partir da intimação formal dos partidos. O objetivo do STF é usar as respostas para avaliar se há necessidade de novas medidas cautelares para frear o que Dino classificou recentemente como “terceirização ilegal” de verbas públicas.
A medida se soma a uma série de decisões recentes do ministro para combater a falta de transparência nas chamadas “emendas Pix” e conter o uso político do orçamento secreto, em uma queda de braço que continua a tensionar as relações entre o Judiciário e o Legislativo.





