O empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos — gestora liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em janeiro —, entregou à Procuradoria-Geral da República uma proposta de colaboração premiada centrada no ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo a coluna de Lauro Jardim no O Globo deste domingo (30), o ponto mais relevante do material é a afirmação de Mansur de que pode indicar onde Vorcaro manteria, no Brasil, cerca de R$ 20 bilhões em ativos.
De acordo com o relato reproduzido pela coluna, a cifra não estaria apenas em dinheiro. Incluiria direitos creditórios, imóveis e outros bens “camuflados em nome de laranjas e em fundos como o Astralo”, veículo já citado em investigações da Polícia Federal. A ÉNotório não obteve confirmação oficial da PGR sobre o valor. Até o fechamento, a informação de R$ 20 bilhões não constava das reportagens de 26 de agosto que revelaram a entrega da proposta.
A existência da proposta, porém, foi antecipada pelo UOL e confirmada por CNN, Folha, InfoMoney e Gazeta do Povo. O texto entregue teria 17 anexos sobre operações financeiras. Mansur se dispõe a pagar R$ 40 milhões em multa — montante que, segundo ele, corresponde ao que recebeu da Reag no período em que a empresa operou. O acordo está em fase de ajustes. Não foi assinado. Se a PGR aceitar, a colaboração ainda precisará ser homologada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF.
Vorcaro já teve duas propostas de delação rejeitadas pela PF e pela PGR, que consideraram o material insuficiente. Uma tentativa anterior de delação conjunta entre Mansur e Vorcaro, quando ambos eram clientes do criminalista José Luís de Oliveira Lima, também não avançou. A defesa de Mansur passou a ser conduzida por Aloísio Medeiros.
O que já estava nos autos
Mansur e a Reag são investigados na Operação Compliance Zero, que apura fraudes ligadas ao Master, e na Operação Carbono Oculto, em que a PF suspeita do uso de fundos para lavagem de recursos, inclusive com menção a estruturas associadas ao PCC. A Reag prestava serviços de estruturação e administração de fundos ao Master desde 2019, segundo o próprio Mansur.
O fundo Astralo (Astralo 95) aparece em comunicações do Banco Central e em reportagens do G1 e do UOL como elo entre o Master e operações de cotas, offshores e veículos como o Galo Forte. Dados da Receita, publicados pelo G1, apontam que Vorcaro e o Master aplicaram R$ 12,2 bilhões em fundos entre 2017 e 2025, parcela relevante em carteiras ligadas à Reag. Essas cifras já investigadas não se confundem, nesta matéria, com os R$ 20 bilhões mencionados na coluna de domingo.
Integrantes da PGR ouvidos pela CNN sob reserva avaliaram que o relato de Mansur seria “mais robusto” do que as propostas recusadas de Vorcaro e teria “mais chance de prosperar”. Trata-se de avaliação reservada, não de decisão formal.
Situação jurídica
Vorcaro está preso preventivamente no âmbito da Compliance Zero. Mansur foi alvo de buscas, não de prisão. Nem a proposta de colaboração nem as investigações equivalem a condenação. A outra versão de Vorcaro sobre o destino de ativos não foi publicamente detalhada nesta nova etapa; as duas tentativas anteriores de delação foram rejeitadas.
Se homologada, a colaboração de Mansur pode afetar a estratégia defensiva de Vorcaro e ampliar o rastreamento de fundos, laranjas e offshores. Enquanto não houver assinatura da PGR e decisão do STF, o que existe é uma proposta — e uma alegação de R$ 20 bilhões que ainda depende de prova.