“Respeito à soberania”: Fachin cobra governo dos EUA após críticas à Justiça brasileira

Brasília – Em um momento de forte fricção diplomática e comercial, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, divulgou uma nota oficial nesta quinta-feira (16) cobrando respeito do governo dos Estados Unidos à independência do Poder Judiciário do Brasil.

A manifestação inédita e direta ocorre após órgãos oficiais do governo norte-americano criticarem e questionarem decisões judiciais brasileiras em documentos públicos.

O estopim: protecionismo e pressão externa

A reação enérgica de Fachin não acontece no vácuo. Ela se insere em uma escalada de tensão entre Brasília e Washington, deflagrada após os EUA imporem uma tarifa aduaneira de 25% sobre diversos produtos exportados pelo Brasil.

Para justificar o “tarifaço”, a representação comercial dos Estados Unidos (USTR) utilizou a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, alegando que o Brasil adota “práticas comerciais prejudiciais”. No relatório norte-americano, são citados de forma crítica temas sob constante julgamento ou regulação no Brasil, tais como:

 Regulação e decisões sobre plataformas digitais;

 Funcionamento e regras do sistema Pix;

 Combate ao desmatamento e regras ambientais;

 Propriedade intelectual e mercado de etanol.

O uso desse relatório comercial para tentar interferir indiretamente ou constranger decisões da Justiça brasileira irritou a cúpula do Judiciário.

“Sem pressão externa”: os principais pontos da nota do STF

Na nota oficial, o ministro Edson Fachin foi categórico ao afirmar que o STF exerce suas competências exclusivamente sob o império da Constituição brasileira e não aceitará interferências.

“Divergências entre Estados devem ser conduzidas pelos canais diplomáticos e pelos mecanismos próprios do Direito Internacional, jamais por iniciativas que possam ser interpretadas como forma de constrangimento ao exercício da jurisdição constitucional.”

— Edson Fachin, presidente do STF

O chefe do Judiciário brasileiro pontuou três pilares fundamentais no recado de reciprocidade enviado a Washington:

1. Independência inabalável: A atuação do Tribunal se dá “sem qualquer influência, pressão ou condicionamento de natureza externa”.

2. Princípio de reciprocidade: O STF destacou respeitar a autonomia das instituições de todas as outras nações, exigindo a exata mesma postura em relação à República Federativa do Brasil.

3. Canais adequados: Fachin alertou que disputas geopolíticas e comerciais devem transcorrer pela via diplomática e jurídica internacional, e não mirando juízes ou o sistema legal interno do país.

Reações e desdobramentos

A manifestação do Supremo soma-se ao tom duro adotado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também reagiu formalmente contra a barreira tarifária de 25% imposta pelos americanos, questionando a legalidade internacional da medida.

Especialistas em relações internacionais apontam que o cenário desenha uma das maiores crises recentes de diálogo institucional entre os dois maiores PIBs das Américas. Enquanto o governo federal estuda acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) ou aplicar medidas de retaliação (lei de reciprocidade comercial), o STF optou por blindar a soberania jurídica do país, deixando claro que pressões comerciais americanas não ditarão o rumo da jurisprudência nacional.

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