Beto Simonetti faz balanço dos avanços da profissão no Dia da Advocacia
Neste 11 de agosto, Dia da Advocacia, a profissão chega à sua data maior atravessando uma das transformações mais profundas das últimas décadas. Inteligência artificial, julgamentos virtuais, novas formas de exercício profissional, proteção dos honorários e defesa das prerrogativas passaram a dividir a agenda da advocacia brasileira.
À frente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil desde 2022 e reconduzido por unanimidade em 2025 para o mandato 2025-2028 (o primeiro presidente reeleito desde a redemocratização), Beto Simonetti colocou a defesa das prerrogativas, a valorização profissional, a capacitação e a unidade da classe entre os eixos centrais de sua gestão.
A entrevista a seguir é baseada em pesquisa e investigação de dados oficiais, documentos públicos, lançamentos da OAB Nacional e declarações institucionais recentes.
1. Qual a principal transformação ocorrida nesses quatro anos e meio?
A principal transformação é a consolidação da advocacia como categoria que enfrenta, de forma institucional e coordenada, a revolução tecnológica e a necessidade de proteção econômica e de prerrogativas. Em 2022 a OAB ainda reagía a mudanças; em 2026 ela antecipa e organiza respostas nacionais. O Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia (lançado em junho de 2026), a Lei 15.472/2026 (natureza alimentar dos honorários) e a interiorização efetiva são exemplos concretos de que a Ordem saiu da postura defensiva para a propositiva.
2. Qual o impacto prático da Lei 15.472/2026, que reconheceu a natureza alimentar dos honorários (inclusive contratuais)?
O impacto é direto na subsistência do advogado. A lei altera o Estatuto da Advocacia (arts. 22 e 24) e equipara todos os honorários — contratuais, judiciais ou de sucumbência — aos créditos trabalhistas. Isso significa prioridade em concursos de credores, proteção contra penhora indevida e tratamento privilegiado em falência, recuperação judicial e insolvência civil. Antes, apenas os honorários de sucumbência gozavam de reconhecimento consolidado no STF. Agora a proteção é expressa e universal. Para o advogado que vive dos honorários, especialmente o solo ou de pequeno escritório, trata-se de segurança jurídica histórica.
3. Houve avanço real na defesa das prerrogativas ou ainda existe resistência cultural no Judiciário?
Houve avanço institucional importante. A OAB obteve decisões relevantes no CNJ e em tribunais sobre sustentação oral e respeito às prerrogativas. A defesa passou a ser permanente e não apenas reativa. Ainda existe, porém, uma cultura residual em setores do Judiciário que trata certas prerrogativas como “concessão” e não como direito. A Ordem continua enfrentando esses casos individualmente e, ao mesmo tempo, trabalha por mudanças estruturais (incluindo propostas de reforma do Judiciário discutidas em 2026).
4. Qual o projeto de longo prazo da OAB em relação à inteligência artificial?
O Plano Nacional de Integração da Inteligência Artificial na Advocacia (PNIAA), lançado em junho de 2026, é a política permanente. Ele tem cinco eixos: governança (Código de Boas Práticas), capacitação, modernização dos serviços da OAB, defesa de prerrogativas e inclusão tecnológica. Em julho foi lançado o OpenDetector (ferramenta gratuita para detectar prompt injection, jailbreaks e, em breve, alucinações). A parceria com a Universidade de Stanford (Deliberative Democracy Lab) e o IDP produzirá pesquisa de impacto e certificação internacional. O objetivo é que a capacitação em IA se torne política contínua para mais de um milhão de profissionais, sem deixar ninguém para trás.
5. O que o levantamento Fala Jovem Advocacia (9.102 respondentes) revelou e quais respostas a OAB pretende entregar?
O censo (dados divulgados em fevereiro de 2026) mostrou realidade dura: 39% têm menos de um ano de inscrição; a falta de clientes é a principal dificuldade (36%); seguem-se insegurança técnica/prática, altos custos de escritório e ausência de mentoria. O custo dos cursos é o maior obstáculo à formação continuada (48%). A OAB usa esses dados para orientar políticas de apoio à jovem advocacia no ciclo 2025-2028: ampliação de formação prática acessível via ESA, interiorização de estruturas, incentivo à mentoria e combate ao aviltamento de honorários.
6. O que mudou para o advogado do interior e como evitar que a IA amplie desigualdades?
Mais da metade da advocacia atua, exclusiva ou parcialmente, fora das capitais. A política de interiorização levou estrutura, coworkings, atendimento de prerrogativas e presença física a dezenas de municípios. A frase institucional é clara: “Quem não escuta o interior, não escuta o Brasil”. A estratégia de IA é deliberadamente inclusiva: ferramentas gratuitas (como o OpenDetector), capacitação regionalizada e acesso a tecnologia para quem atua sozinho em cidades pequenas, para que a inovação não aumente a distância em relação aos grandes escritórios.
7. A representatividade feminina dentro do Sistema OAB já corresponde à realidade da profissão?
As mulheres já são maioria na advocacia. A gestão avançou em paridade de gênero nos órgãos da OAB, preferência em determinadas sustentações orais, protocolo de julgamento com perspectiva de gênero e combate ao assédio. Ainda existe, no entanto, dívida institucional a ser enfrentada de forma permanente, especialmente na alta direção e em espaços de poder. A meta é que a representatividade interna reflita a realidade dos escritórios e fóruns.
8. Como manter a OAB independente em ambiente polarizado?
A linha é clara desde 2022 e reiterada na posse de 2025: “Nosso partido é a advocacia”. A Ordem dialoga com todos os Poderes (governo, Congresso, Supremo e demais instituições), mas não se alinha a partidos ou candidatos. Independência não significa omissão. Significa defender a Constituição, o Estado Democrático de Direito e as prerrogativas profissionais sem se transformar em instrumento de qualquer projeto político.
9. Que advocacia o senhor imagina daqui a cinco ou dez anos? O advogado que não incorporar IA permanecerá competitivo?
A 25ª Conferência Nacional da Advocacia (Salvador, 23 a 25 de novembro de 2026), sob o tema “Direito e Tecnologia: O Futuro da Advocacia na Sociedade Digital”, é o espaço para essa discussão. A advocacia do futuro será digital, mas profundamente humana. Quem não incorporar inteligência artificial e novas tecnologias terá dificuldade de competitividade. Porém a tecnologia não substitui o advogado: ela amplifica a capacidade de quem domina o Direito, a ética e a relação com o cliente. Capacitação contínua e inclusão tecnológica são as condições de permanência.
10. Qual conquista o senhor gostaria que permanecesse como legado?
A combinação de três frentes: proteção econômica efetiva dos honorários (Lei 15.472/2026), política nacional estruturada de inteligência artificial com inclusão, e interiorização real que fez milhares de advogados e advogadas sentirem que a OAB está presente onde eles estão. O legado desejado é uma Ordem mais forte, mais unida e mais preparada para defender a advocacia e a democracia.
Pergunta final — mensagem direta a cada advogada e advogado brasileiro
Neste 11 de agosto de 2026, a mensagem é de reconhecimento e de compromisso. Do grande escritório da capital ao profissional que trabalha sozinho no interior: a OAB existe para proteger suas prerrogativas, valorizar seu trabalho e garantir que a tecnologia e as mudanças do mundo não deixem ninguém para trás. Não existe Justiça plena sem uma advocacia forte. Continuamos juntos.





