Pular para o conteúdo
Sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Menu

Desembargador do TJ-AL publica extrato com saldo de R$ 96,10 e recebe R$ 70 mil líquidos no dia seguinte

Por IveliseMaia
Publicado em 26/08/2026 às 17:00

Márcio Roberto Tenório de Albuquerque afirmou não receber “penduricalhos” e criticou a cobertura da imprensa; após a repercussão, o post foi apagado. O gabinete disse que ele não comentaria a publicação.

O desembargador Márcio Roberto Tenório de Albuquerque, do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), publicou em 19 de agosto, no Instagram, um extrato da conta-salário no Banco de Brasília (BRB) com saldo positivo de R$ 96,10. No dia seguinte, segundo o Portal da Transparência do próprio tribunal — valor reproduzido de forma convergente por Estadão, O Globo, Migalhas e UOL —, ele recebeu R$ 70.082,99 líquidos.
A publicação, intitulada “O custo da coragem e o saldo do fim do mês”, foi feita na véspera do crédito salarial. No texto, o magistrado escreveu que aproveitou “um momento de repouso” para consultar a conta e concluiu: “Cheguei ao fim do mês ‘de boa’, ou seja, com um saldo positivo de R$ 96,10 (noventa e seis reais e dez centavos), com as graças de Deus.”
O extrato, conforme descrição dos veículos que reproduziram a imagem, apontava saldo negativo de R$ 161,83 na conta corrente e R$ 257,93 em aplicação automática (poupança, CDB ou fundo). A soma resulta nos R$ 96,10 citados. O Globo registrou ainda que o aplicativo exibia limite de cheque especial de R$ 20 mil, o que elevava o crédito disponível indicado na tela a R$ 20.096,10.
Sobre o pagamento do dia 20, Albuquerque afirmou: “Amanhã, dia 20/08, como é público, notório e frequentemente divulgado com alarde pela mídia — quase sempre com aquele tom crítico, malicioso e inconsistente que busca generalizar e desmerecer a aguerrida Justiça brasileira e seus incansáveis magistrados —, irei receber o meu merecido salário, pois sou desembargador do TJAL. Um ganho que é fruto de muito trabalho, suor e, acima de tudo, honra.”
Em relação aos chamados “penduricalhos” — expressão usada no debate público para vantagens e parcelas extras pagas no serviço público —, o desembargador declarou: “Sequer tenho conhecimento de onde estavam eles. Simplesmente não os recebi e, por isso mesmo, não tenho saudade do que nunca fez parte da minha realidade financeira.”

O valor líquido de agosto supera em R$ 23.716,80 o teto constitucional vigente, de R$ 46.366,19, equivalente ao subsídio dos ministros do Supremo Tribunal Federal. De janeiro a julho de 2026, a média líquida mensal atribuída ao desembargador nos mesmos relatórios de transparência, segundo Estadão, O Globo e Migalhas, foi de R$ 65.311,38 — também acima do teto em cada um desses meses. Agosto foi o maior pagamento mensal dele no ano até então, de acordo com essas reportagens.
Ultrapassar o teto no valor líquido não equivale, por si só, a irregularidade. O Supremo reafirmou em 2026 que o teto permanece em R$ 46.366,19, mas admitiu, enquanto não houver lei nacional regulamentadora, parcelas indenizatórias e de tempo de carreira dentro de limites percentuais. A apuração desta matéria não detalhou rubrica a rubrica o contracheque de agosto de Albuquerque; portanto, não é possível afirmar, com base apenas no líquido publicado, quais parcelas compuseram a diferença em relação ao teto nem se houve descumprimento das regras fixadas pelo STF e pelo CNJ.
Albuquerque integrou o TJ-AL em abril de 2024 pela vaga do quinto constitucional do Ministério Público, após carreira no MP de Alagoas, inclusive como procurador-geral de Justiça. Em janeiro de 2026, publicou um manifesto em que cogitou aposentar-se e criticou o ambiente interno da Corte; dias depois, anunciou que permaneceria no cargo. A Corregedoria Nacional de Justiça chegou a abrir pedido de providências sobre trechos daquela manifestação. Esses episódios são anteriores e distintos do post do extrato.