Cuidados com canetas emagrecedoras: o que médicos especialistas recomendam

O uso de medicamentos conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras — à base de semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) — exige avaliação médica prévia, acompanhamento contínuo e mudanças consistentes no estilo de vida. Especialistas e consensos internacionais alertam que o tratamento isolado, sem orientação profissional, aumenta riscos de efeitos adversos e de resultados pouco sustentáveis.

Indicação e avaliação inicial

Segundo endocrinologistas e diretrizes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), esses medicamentos são indicados para adultos com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) ou com sobrepeso (IMC ≥ 27 kg/m²) associado a comorbidades, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono ou doença cardiovascular.

A prescrição deve ser precedida de avaliação clínica completa e exames que incluam glicemia, hemoglobina glicada, função hepática e renal, perfil lipídico e, em alguns casos, ultrassom abdominal. Contraindicações incluem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide e síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2. O uso meramente estético ou em pessoas com peso normal não é recomendado.

Desde 2025, a Anvisa determina a dispensação desses medicamentos apenas com retenção de receita, válida por até 90 dias.

Acompanhamento multidisciplinar e preservação da massa muscular

Um consenso publicado em julho de 2026 na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, elaborado pela Associação Europeia para o Estudo da Obesidade (EASO), pela Federação Europeia das Associações de Nutricionistas (EFAD) e pela Coalizão Europeia de Pessoas que Vivem com Obesidade (ECPO), destaca que o sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela balança. Parte da perda de peso corresponde à redução de massa muscular.

O documento recomenda ingestão diária de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado (mínimo de 60 gramas por dia, distribuídas ao longo das refeições) durante a fase de emagrecimento. Na manutenção, a faixa orientada é de 0,8 a 1 grama por quilo. Exercícios de força (musculação) passam a ser considerados parte integrante do tratamento, e não apenas complementar.

Endocrinologistas brasileiros reforçam a mesma linha: a medicação reduz o apetite, mas não substitui a reeducação alimentar nem o treinamento de resistência. Sem esses pilares, elevam-se os riscos de sarcopenia, deficiências nutricionais e reganho de peso após a interrupção.

Efeitos adversos e sinais de alerta

Os efeitos mais frequentes são gastrointestinais: náusea, vômitos, diarreia, constipação, refluxo e desconforto abdominal. Eles costumam ser mais intensos no início do tratamento ou nos aumentos de dose e tendem a diminuir com a adaptação e com ajustes alimentares (porções menores, redução de alimentos gordurosos e ultraprocessados, hidratação adequada).

Eventos mais graves, embora raros, incluem pancreatite aguda, problemas de vesícula biliar e desidratação que pode afetar a função renal. A Anvisa emitiu alertas sobre o risco de pancreatite, especialmente no uso fora das indicações aprovadas, e orienta a interrupção imediata e a busca por atendimento médico em caso de dor abdominal intensa e persistente (que pode irradiar para as costas), vômitos frequentes ou sinais de desidratação.

Há também risco documentado de produtos falsificados ou irregularmente manipulados, que podem apresentar pureza reduzida, contaminação e ausência de esterilidade. Especialistas e a Anvisa recomendam adquirir apenas medicamentos registrados, com rastreabilidade e armazenamento correto (refrigeração conforme bula, evitando congelamento e exposição a temperaturas inadequadas).

Armazenamento e uso correto

As bulas orientam o armazenamento em geladeira (2 °C a 8 °C) antes do primeiro uso para a maioria dos produtos. Após a abertura, há prazos específicos de validade (geralmente até 8 semanas para algumas canetas, conforme o fabricante). O não cumprimento dessas orientações pode reduzir a eficácia e aumentar riscos de degradação ou contaminação.

A dose deve ser iniciada em níveis baixos e aumentada gradualmente, sob supervisão médica. Ajustes por conta própria elevam a ocorrência de efeitos adversos sem acelerar a perda de peso de forma segura.

Contexto e fontes

As orientações reunidas nesta matéria baseiam-se em consensos publicados na The Lancet Diabetes & Endocrinology (julho de 2026), diretrizes da Abeso e da SBEM, alertas da Anvisa sobre farmacovigilância e uso indevido de agonistas de GLP-1, além de declarações públicas de endocrinologistas e nutrólogos em veículos de referência. O tratamento da obesidade é reconhecido como de longo prazo e exige abordagem individualizada.

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