Decisão judicial expõe reunião em que diretor financeiro das Americanas alertou sobre fraude: “Vocês vão ser processados e presos”

Sete dias antes de a Americanas comunicar ao mercado as inconsistências contábeis bilionárias, em janeiro de 2023, o então diretor financeiro André Covre reagiu ao conhecer as irregularidades em uma reunião interna e afirmou que se tratava de fraude. Em seguida, advertiu os presentes de que seriam processados e presos. A informação consta de decisão da Justiça Federal à qual a coluna teve acesso e que embasa investigações da Polícia Federal.

A reunião de janeiro de 2023

De acordo com a decisão da Justiça Federal, o episódio ocorreu no início de janeiro de 2023, poucos dias depois de André Covre assumir o cargo de diretor financeiro e de relações com investidores, por indicação de Paulo Lemann.

Na ocasião, Covre recebeu uma apresentação preparada pelo então diretor Marcelo Nunes sobre as operações contábeis sob investigação. Ao tomar conhecimento do conteúdo, interrompeu a reunião, levantou-se e declarou: “Isso é fraude”. Na sequência, apontando para os demais presentes, disse: “Vocês vão ser processados e presos”.

O então presidente da companhia, Sérgio Rial, pediu que Covre mantivesse a calma e evitasse conclusões precipitadas.

Segundo a Polícia Federal, Covre chegou à empresa sem conhecimento prévio das manipulações e foi apresentado pela primeira vez à real situação financeira da Americanas naquela reunião com integrantes da antiga diretoria.

Mudança de postura e medidas imediatas

A representação policial reproduzida na decisão afirma que a reação de Covre marcou uma mudança na condução do caso dentro da companhia. A partir daquele momento, as práticas deixaram de ser tratadas internamente como possíveis ajustes ou inconsistências contábeis e passaram a ser encaradas como potenciais ilícitos.

No dia seguinte à reunião, a empresa contratou o escritório de advocacia Barbosa, Müssnich, Aragão (BMA). A Polícia Federal interpreta a contratação como demonstração da necessidade imediata de assessoria jurídica especializada.

Covre passou a exigir levantamento detalhado das operações, incluindo dívidas com fornecedores, contratos de risco sacado, obrigações bancárias e outros passivos. Ele também participou das discussões que antecederam a divulgação do fato relevante ao mercado, em 11 de janeiro de 2023.

Os mecanismos apontados pela PF

De acordo com a investigação da Polícia Federal, as irregularidades consistiam em diferentes mecanismos que, em tese, ocultavam o verdadeiro endividamento da companhia e inflavam artificialmente indicadores financeiros apresentados ao mercado.

Essas práticas permitiam que os balanços demonstrassem situação patrimonial mais favorável do que a real, influenciando investidores e a negociação das ações da empresa. As apurações indicam que as manipulações perduraram por mais de uma década.

As investigações deram origem à Operação Disclosure e já resultaram em denúncia contra ex-executivos da varejista. A decisão analisada integra o braço da apuração voltado a eventual participação de acionistas de referência e de representantes de instituições financeiras.

Contexto e fontes

As informações acima foram extraídas da decisão da Justiça Federal (10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro) à qual a reportagem teve acesso, documento que embasou medidas da segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada em junho de 2026. A coluna não teve acesso a documentos além dos trechos reproduzidos na decisão judicial citada.

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