Elas não miram qualquer processo: usam dados públicos e informações privilegiadas para identificar quem tem valores altos a liberar
Investigação revela o mecanismo por trás da seleção de alvos em um golpe que já causou prejuízo superior a R$ 2,8 bilhões nos últimos três anos
Organizações criminosas especializadas no chamado “golpe do falso advogado” não escolhem vítimas ao acaso. Elas utilizam dados reais extraídos de processos judiciais eletrônicos para identificar pessoas que têm valores significativos a receber da Justiça — indenizações trabalhistas, precatórios, RPVs ou revisões previdenciárias — e abordá-las de forma personalizada.
De acordo com investigações da Polícia Civil em vários estados e relatos compilados pela OAB, o esquema evoluiu de um estelionato simples para uma operação mais sofisticada, que explora a publicidade dos processos judiciais brasileiros.
Como os criminosos obtêm os dados das vítimas
A grande maioria dos processos judiciais no Brasil tramita em sistemas eletrônicos (99,9% segundo a OAB-RJ). Quando não estão sob segredo de justiça, esses processos expõem publicamente:
• Nome completo da parte
• CPF
• Número do processo
• Valor da causa ou do benefício reconhecido
• Telefone e e-mail cadastrados
• Nome do advogado constituído
Relatos de investigações policiais e da própria OAB indicam que quadrilhas acessam esses dados de duas formas principais:
• Consulta direta em sistemas públicos — Muitos portais de tribunais permitem buscas por nome ou CPF sem autenticação forte.
• Aquisição ou roubo de credenciais — Em casos mais graves, investigações apontam para o uso de logins e senhas de advogados reais para acessar sistemas internos da Justiça, ampliando o volume e a qualidade das informações obtidas.
Com esses dados em mãos, os golpistas conseguem abordar a vítima de forma extremamente convincente, citando detalhes reais do processo.
Como selecionam quem “vale a pena” ser alvo
Nem toda pessoa com processo na Justiça é abordada. Os criminosos priorizam alvos com as seguintes características:
• Valores mais altos a receber (precatórios e indenizações de maior monta são especialmente visados)
• Decisões já transitadas em julgado ou em fase avançada de execução
• Pessoas que já receberam valores parciais ou que estão em fase de habilitação de herdeiros
• Idosos ou pessoas em situação de vulnerabilidade financeira (mais propensas a acreditar na promessa de “liberação rápida”)
A abordagem costuma ocorrer por WhatsApp ou ligação, com o golpista se passando pelo advogado da vítima ou por funcionário do escritório. Eles informam que “o dinheiro já está disponível” ou que “houve uma decisão favorável” e solicitam o pagamento de “taxas”, “custas” ou “valores para desbloqueio” via PIX.
O prejuízo e a resposta das autoridades
Segundo dados compilados até o final de 2025, o prejuízo causado por esse tipo de golpe nos últimos três anos já ultrapassa R$ 2,8 bilhões. A OAB registrou mais de 2 mil denúncias formais só em 2025, número considerado subnotificado.
Polícia Civil de vários estados já deflagrou operações contra quadrilhas especializadas. Em alguns casos, foram apreendidos manuais internos de atuação — documentos que detalham passo a passo como abordar vítimas, simular ligações e forjar documentos.
Em março de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que endurece as penas para esse tipo de fraude e cria mecanismos mais ágeis de bloqueio de valores e devolução prioritária às vítimas. O texto ainda tramita no Senado.
Nota da Redação: Esta reportagem foi produzida com base em dados públicos, investigações policiais divulgadas e informações da OAB. O ÉNotório recomenda que qualquer pessoa que receba contato solicitando pagamento para liberação de valores judiciais denuncie imediatamente à Polícia Civil e à OAB de seu estado. Nunca realize transferências via PIX para “agilizar” ou “desbloquear” valores da Justiça.





