Morre o advogado Sergio Bermudes

Jurista era um dos nomes mais influentes na advocacia do país.

Faleceu nesta segunda-feira, 27, o advogado Sergio Bermudes (OAB/DF 2.192/A), aos 79 anos, um dos nomes mais influentes da advocacia do país.

Figura central no meio jurídico, Bermudes dedicou quase meio século ao Direito e consolidou-se como um dos mais respeitados processualistas do país. 

O jurista estava internado havia sete meses e faleceu por sepsia respiratória. Ele enfrentava complicações de saúde que se agravaram desde o diagnóstico de covid-19, em 2020.

Bermudes nasceu em Cachoeiro do Itapemirim/ES. Graduou-se em Direito pela Universidade do Estado da Guanabara (UEG), em 1969, e obteve doutorado em História do Processo Romano, Canônico e Lusitano pela USP.

Ainda em 69, fundou o escritório Sergio Bermudes Advogados, hoje uma das maiores bancas do Brasil, com sedes no RJ, SP, Brasília e Belo Horizonte, e mais de 130 advogados.

Docente desde 1970, lecionou na PUC/RJ, na Uerj e na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas. Em 1985, integrou a comissão de juristas responsável pela revisão do CPC e, posteriormente, atuou como juiz do TRE/RJ.

Em março deste ano, foi homenageado pela publicação britânica Chambers and Partners, que destacou sua contribuição à advocacia e à formação de novas gerações de profissionais.

A partir da década de 1980, Bermudes consolidou sua liderança no contencioso cível e nas reestruturações empresariais, participando de litígios que envolveram grandes companhias em todo o país.

Caso Herzog

Entre as causas que marcaram sua trajetória está a defesa de Clarice Herzog, viúva do jornalista Vladimir Herzog, morto durante o regime militar em 1975. O caso levou à histórica decisão judicial que reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte do jornalista sob custódia, marco na luta pelos direitos humanos no Brasil.

Planos econômicos

Outra causa de grande destaque é a ação coletiva dos poupadores contra instituições financeiras, relativa à remuneração das cadernetas de poupança durante os planos econômicos das décadas de 1980 e 1990 – disputa que teve acordo finalizado em 2017.

Carreira acadêmica e contribuição ao Direito

A docência foi um dos pilares da trajetória de Bermudes. Ele iniciou sua atividade como professor em 1970, lecionando Teoria Geral do Estado na então Universidade do Estado da Guanabara e Direito Processual Civil na Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas, onde se tornou titular em 1971.

Em 1978, passou a integrar o corpo docente da PUC/RJ, assumindo a cadeira de Direito Processual Civil e participando do Conselho de Desenvolvimento da instituição.

Participou de bancas examinadoras de concursos para magistratura e procuradorias, além de ministrar conferências e palestras em praticamente todas as faculdades de Direito do país e em eventos jurídicos no exterior.

Reconhecimentos

Sua trajetória foi amplamente reconhecida por publicações especializadas, entre elas:

Chambers & Partners Global, que o classificou como star individual em Dispute Resolution;

Legal 500, que o apontou como leading lawyer na mesma área;

Benchmark Litigation, que o destacou como litigation star em Direito Comercial;

Leaders League, que o indicou como especialista em Arbitragem e Resolução de Conflitos; e

Análise Advocacia 500, que o listou diversas vezes entre os advogados mais admirados do país.

Atuação institucional e publicações

Membro de instituições jurídicas nacionais e estrangeiras, Bermudes integrou o IAB, o Instituto Brasileiro de Direito Processual, a Associação Internacional de Direito Processual, o Instituto Ibero-americano de Direito Processual e a International Academy of Trial Lawyers.

Autor de referência no Direito Processual Civil, publicou ensaios, artigos e pareceres sobre temas de Direito Civil, Constitucional, Comercial e Administrativo. Foi também o responsável pela atualização da coleção de 18 volumes dos “Comentários ao Código de Processo Civil” de Pontes de Miranda, editada pela Forense a partir de 1996.

Entre suas principais obras estão:

Curso de Direito Processual Civil – Recursos (Borsoi, 1972)

Iniciação ao Estudo do Direito Processual Civil (Liber Júris, 1973)

Caso Herzog: a sentença (Salamandra, 1978)

Tutela jurisdicional da liberdade (OAB, 1980)

Direito Processual Civil – Estudos e Pareceres (Saraiva, 1983, 1994 e 2002)

Introdução ao Processo Civil (Forense, 1995)

A Reforma do Código de Processo Civil (Saraiva, 1996 e 2010)

CPC de 2015: Inovações (GZ Editora, 2016 e 2018)

Sergio Bermudes deixa um legado que atravessa gerações – como jurista, professor e advogado que marcou a história do Direito Processual Civil brasileiro.

Homenagens

Em nota, o escritório Sergio Bermudes Advogados lamentou o falecimento do jurista:

Com profunda tristeza, comunicamos o falecimento do nosso fundador, mestre e grande amigo, Sergio Bermudes, ocorrido na tarde de hoje, 27 de outubro de 2025, aos 79 anos, no Hospital CopaStar no Rio de Janeiro.

Pessoa de integridade inatacável, sua dedicação à Justiça e aos direitos humanos foi um exemplo inspirador para todos nós. Sua partida deixa um vazio imenso na comunidade jurídica brasileira.

Figura notável no cenário jurídico, sua brilhante carreira estendeu-se por mais de 50 anos, tempo em que, por meio de seu trabalho, conquistou o reconhecimento por seus pares e autoridades como um dos advogados mais respeitados do país. 

Sergio, acima de tudo, foi um professor. Nada dava a ele mais prazer do que ensinar. Ao longo dos mais de 50 anos de sua carreira profissional e acadêmica, ele contribuiu para a formação de várias gerações de advogados. Sergio fez do escritório uma escola de formação de profissionais, influenciando milhares de advogados, estagiários e colaboradores que por aqui passaram.

Temos o compromisso de continuar honrando o seu legado de luta pelo direito, por uma sociedade mais justa e fraterna e pela formação das novas gerações de advogados.

Que a sua memória continue a nos inspirar:

“(…) todo o sistema de adaptação do homem na sociedade caminha, lenta mas inevitavelmente, na direção do sonho dos que, de olhos voltados para o alto, se empenham na criação da realidade resumida neste dístico: um só direito, num mundo único, convertido na pátria sem fronteiras do homem, finalmente digno da imagem e da semelhança de Deus.” (Sergio Bermudes)

Bermudes Advogados

No X, ministro Gilmar Mendes afirmou que Bermudes foi “um dos maiores advogados do país”:

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil lamentou a morte do jurista, e decretou luto oficial de três dias.

“Sergio Bermudes reuniu talento, coragem e rigor técnico em uma trajetória que honra a advocacia brasileira. Sua atuação firme em momentos-chave da nossa história deixa um legado de integridade e compromisso com a profissão”, afirmou o presidente da OAB Nacional, Beto Simonetti.

De acordo com o procurador constitucional, presidente da Comissão Constitucional e membro honorário vitalício do Conselho Federal, Marcus Vinícius Furtado Coêlho, “Bermudes possui inexcedível contribuição para a qualidade do exercício da advocacia. No âmbito da OAB, foi braço direito de Raymundo Faoro, o presidente da redemocratização do Brasil. Na academia e na profissão, sempre foi um inovador e fiel defensor dos postulados constitucionais. Permanecerá vivo por seus ensinamentos e pelo legado de dignidade e altivez”.

A OAB/RJ também decretou luto de três dias:

“Hoje, toda a advocacia do Rio de Janeiro e do Brasil fica orfã de um dos maiores gênios da advocacia nacional. Sergio Bermudes fez história com a sua atuação combativa e a sua cultura inigualável. Ele inspirou muitas gerações de advogados e advogadas, e terá sempre um lugar de destaque no panteão de grandes homens que iluminaram gerações”, comentou Ana Tereza Basilio, presidente da OAB/RJ.

A OAB/DF publicou nota falecimento, chamando Bermudes de “gigante do Direito brasileiro”:

“(…)

Sérgio Bermudes, natural de Cachoeiro do Itapemirim/ES, foi um advogado de inteligência fulgurante e memória prodigiosa, que dedicou sua vida ao Direito e à justiça. (…) Sua trajetória foi marcada por atuações emblemáticas e um compromisso inabalável com a defesa dos direitos.

O presidente da OAB/DF, Paulo Maurício Siqueira, Poli, expressou sua consternação: “É com imensa tristeza que nos despedimos de um gigante do Direito brasileiro. Dr. Sérgio Bermudes não foi apenas um advogado brilhante, mas um defensor incansável da justiça e dos direitos humanos, cujo legado inspirará e guiará gerações de advogados. Sua partida deixa uma lacuna imensa em nossa comunidade jurídica.”

O conselheiro federal Délio Lins e Silva Jr. também lamentou a perda: “A advocacia nacional perde uma de suas maiores referências. A sagacidade jurídica de Sérgio Bermudes e sua capacidade de inovar marcaram a prática e a teoria do Direito no Brasil. Seu exemplo de dedicação e ética profissional permanecerá vivo entre nós.”

Neste momento de luto, a OAB/DF e a CAADF se solidarizam com os familiares, amigos, colegas de escritório e toda a comunidade jurídica, rogando por conforto e paz.

O legado de Sérgio Bermudes, pautado pela excelência, ética e compromisso com a justiça, será eternamente lembrado e honrado.

Diretoria da OAB/DF

Diretoria da CAADF”

Fonte: Portal Migalhas 

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