A metáfora que ruiu: TSE compara urna eletrônica à Seleção e a eliminação precoce expõe a incoerência da estratégia institucional

Publicado com tom ufanista às vésperas das oitavas de final, o vídeo do TSE que desejava à Seleção Brasileira a mesma “segurança, rapidez e eficiência” do sistema eleitoral terminou se transformando em peça de ironia involuntária após a eliminação nas oitavas para a Noruega. Mais do que um erro de timing, a iniciativa revela os riscos de uma comunicação institucional que aposta em metáforas frágeis em vez de argumentos substantivos.

No final de junho de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral publicou nas redes sociais um vídeo com imagem de Vinicius Jr. e narração direta: “Bom dia! Que a seleção hoje esteja tão segura, rápida e eficiente quanto o nosso sistema eleitoral brasileiro!” A peça, claramente pensada para associar o sistema eletrônico de votação ao clima de euforia da Copa do Mundo, foi veiculada no dia do confronto contra o Japão.

Poucos dias depois, no dia 5 de julho, o Brasil foi eliminado nas oitavas de final pela Noruega por 2 a 1, em Nova Jersey. Haaland marcou os dois gols da vitória norueguesa nos minutos finais. A campanha brasileira, que já havia mostrado irregularidade na fase de grupos, terminou de forma precoce e decepcionante.

A estratégia retórica e seu colapso

A escolha da Seleção Brasileira como parâmetro de comparação não foi casual. O futebol é o principal vetor de identidade nacional no Brasil. Ao vincular a urna eletrônica a um dos maiores símbolos de sucesso e orgulho coletivo, o TSE buscava transferir para o sistema eleitoral parte da carga emocional positiva associada ao time.

O problema é que essa estratégia depende inteiramente do desempenho da Seleção. Quando o time entrega resultados abaixo do esperado — e, no caso, uma eliminação precoce contra uma seleção que raramente chega tão longe —, a metáfora deixa de funcionar como reforço positivo e passa a funcionar como contraste negativo.

A frase “segura, rápida e eficiente” soa especialmente irônica quando aplicada a uma equipe que demonstrou fragilidade defensiva nos momentos decisivos e não conseguiu manter o controle do jogo contra um adversário bem organizado. A “eficiência” desejada pelo TSE não se materializou em campo. A associação, portanto, retrocede sobre a própria instituição que a criou.

Riscos da comunicação por metáfora esportiva

Instituições públicas que optam por comunicar suas qualidades por meio de comparações com o futebol correm um risco estrutural: o futebol é, por natureza, imprevisível, sujeito a variáveis como forma momentânea de jogadores, decisões de arbitragem, lesões e sorte. O sistema eleitoral, por sua vez, é apresentado pelo TSE como um mecanismo técnico, auditável e confiável.

Ao colocar os dois no mesmo patamar retórico, o tribunal convida o público a fazer exatamente o tipo de comparação que agora se volta contra ele. Em um país polarizado, onde o sistema eletrônico de votação já é objeto de questionamentos recorrentes por diferentes setores, essa aproximação com um símbolo em crise amplifica, em vez de atenuar, as dúvidas.

Erro de cálculo ou ingenuidade comunicacional?

A publicação do vídeo às vésperas de uma fase eliminatória da Copa sugere otimismo institucional. No entanto, o otimismo em comunicação pública precisa ser calibrado com a possibilidade de fracasso. Quando a possibilidade se concretiza de forma tão evidente — eliminação nas oitavas contra a Noruega —, a peça deixa de ser apenas “bem-humorada” e passa a ser lida como desconexão entre a narrativa institucional e a realidade.

A Justiça Eleitoral poderia ter escolhido caminhos mais seguros: destacar dados concretos de auditoria, tempo de apuração ou mecanismos de transparência. Em vez disso, apostou em uma metáfora que dependia do sucesso de terceiros. O resultado é uma peça que, em vez de blindar a imagem do sistema, agora serve como exemplo de como a comunicação institucional pode se tornar refém de variáveis fora de seu controle.

O vídeo do TSE não foi apenas uma ação de marketing desastrada. Ele expõe um problema mais profundo na forma como algumas instituições brasileiras comunicam sua própria legitimidade: pela via da associação emocional com símbolos populares, em vez de pela via da argumentação técnica e da transparência permanente.

Quando a Seleção Brasileira é eliminada precocemente, a pergunta que fica não é apenas sobre o futebol. É sobre por que uma instituição do Estado escolheu atrelar sua imagem a um resultado que, como se viu, estava longe de ser garantido.

A credibilidade não se constrói com metáforas que podem virar ironia da noite para o dia. Constrói-se com consistência entre discurso e realidade — algo que, neste caso, o TSE deixou de observar.

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